Das coisas que enxergo pelo mundo – ainda que indiretamente – boa parte delas estão em meu trabalho. Desde criança que olho para o mundo tentando decorar coisas, contando os passos e observando pessoas. Na infância isso se deu por conta da timidez que muitas vezes me isolava e me permitiu assistir A Lagoa Azul por incontáveis vezes na Sessão da Tarde ao invés de estar na rua brincando com as outras crianças. Depois de tudo isso, a observação e a sede por ver de tudo veio como consequência.

Toda essa introdução saudosista é uma forma de iniciar um debate sobre o profissional de comunicação e marketing e a bagagem que ele carrega. Bagagem cultural, mochila cheia de informações, referências e conversas com gente de universos bem diferentes do seu.

Considero essa bagagem como essencial à formação e desenvolvimento de um bom profissional em nosso mercado e observo cada vez mais bolhas se formando e o isolamento em seu “mundo” acontecendo.

No marketing digital, onde fui criado, vejo o fulano que curte duas mil páginas e recebe toda aquela informação (na verdade não recebe, mas enfim), entra em debates, discussões, acessa todo material possível e disponível sobre o seu mundo e acredita que tem muito repertório para seu trabalho, para criar, para planejar e para desenvolver. Não vejo no meio de tudo isso um interesse por pessoas, por comportamento humano, por sentimentos, sensações. Não consigo, na maioria das vezes, enxergar uma estratégia baseada em um insight vindo de algo que não seja a própria internet. Vejo o meme que dura uma semana e marcas se estapeando para ser a primeira a postar algo sobre ele. Frustrante.

Mas de toda forma não é somente no mundo digital onde vejo pessoas assim, seja na propaganda tradicional, nos departamentos de marketing, nas áreas de comunicação ou nas agências, continuo vendo dia após dia pessoas querendo o que já foi feito e deu certo, fórmulas prontas, mais do mesmo, cachorro dando volta em torno do rabo.

Para os que estão entrando nesse mercado ou os que se vêem como descrevi acima, repito o mantra dos grandes gurus que sempre me inspiram: Tenha repertório. Tenha referências! Leia um livro que nada tem a ver com você mas que está sendo sucesso de vendas, veja filmes do Truffaut, do Woody Allen, veja o Se Beber Não Case. Escute Tom e Vinicius, escute Naldo. Converse com o jovem, converse com o velho. Saia do escritório, observe as pessoas, ande sem fone de ouvido.

No final das contas o negócio do marketing e da comunicação trata fundamentalmente de pessoas e é isso o que importa. Seus desejos, suas necessidades, seu comportamento, o que falam, o que não falam (principalmente), o que sabem e o que não sabem. Em resumo, são as pessoas e a compreensão delas que determinam o nosso sucesso.

Antes de me jogarem pedras, uma explicação: Essa não é a realidade de todos os profissionais do mercado. É apenas um texto que nos chama a uma auto avaliação, mas as referências com certeza diferenciam os bons, os ótimos e os geniais dos medíocres.

Filipe